A psilocibina — princípio ativo dos cogumelos “mágicos” Psilocybe cubensis — ficou conhecida por alterar a percepção. Em doses muito menores, porém, ela pode ter efeitos bem diferentes.
Em um estudo com camundongos alimentados para desenvolver obesidade, resistência a insulina e acúmulo de gordura no fígado, uma dose baixa e não psicodélica da substância reduziu o ganho de peso e melhorou vários sinais de alteração metabólica.
O trabalho, de Martina Colognesi, Daniela Gabbia e colegas da Universidade de Pádua, na Itália, foi publicado na revista científica Pharmacological Research. O resultado mais intrigante talvez esteja no mecanismo: os efeitos observados parecem não depender do receptor cerebral mais associado às experiências psicodélicas.
Uma dose muito pequena durante 12 semanas
Os pesquisadores trabalharam com camundongos machos C57BL/6. Parte deles recebeu durante 17 semanas uma dieta rica em gordura e frutose, usada em laboratório para provocar características semelhantes às encontradas na obesidade, no diabetes tipo 2 e na doença hepática esteatótica associada à disfunção metabólica, a MASLD.
Havia três grupos principais: animais com alimentação normal, animais submetidos à dieta obesogênica e animais submetidos à mesma dieta que também receberam psilocibina.
A dose usada foi de 0,05 miligrama por quilograma de peso corporal, administrada por via oral durante 12 semanas e considerada pelos autores baixa demais para produzir um efeito psicodélico.
O experimento começou com aproximadamente dez animais em cada grupo. Algumas análises posteriores tiveram amostras menores.
A diferença apareceu na balança
Ao final do experimento, os camundongos obesos tratados com psilocibina pesavam aproximadamente 12% menos que aqueles que receberam a mesma dieta sem a substância.
Pelos gráficos do estudo, o grupo obeso não tratado chegou a cerca de 40 a 41 gramas, enquanto o grupo tratado ficou próximo de 35 a 36 gramas.
Isso não quer dizer que os animais tenham perdido 12% do peso. Eles continuaram crescendo, mas ganharam menos peso ao longo do experimento. A diferença entre os tratamentos na evolução do peso foi altamente significativa.
Também não parece ter sido simplesmente uma questão de comer menos. O consumo de alimento e água não apresentou diferença estatisticamente significativa entre os grupos, embora tenha ocorrido uma pequena tendência de redução entre os animais tratados.
O efeito no fígado foi ainda mais evidente
A dieta rica em gordura e frutose provocou esteatose hepática, o acúmulo de gordura conhecido popularmente como “fígado gorduroso”.
Nos animais que receberam psilocibina, esse quadro foi bastante reduzido.
Dados preliminares divulgados pela equipe indicavam cerca de 75 miligramas de triglicerídeos por grama de tecido hepático nos camundongos obesos sem tratamento, contra aproximadamente 35 mg/g nos tratados — uma redução próxima de 50%.
Esses números absolutos precisam ser vistos como estimativas dos gráficos, já que não foram apresentados em uma tabela com todas as médias. Ainda assim, o artigo publicado em Pharmacological Research confirma a redução da esteatose e mostra mudanças profundas no metabolismo hepático.
Análises de expressão genética e de moléculas lipídicas mostraram uma normalização de diversas vias ligadas ao metabolismo de gorduras e carboidratos que haviam sido prejudicadas pela dieta.
O estudo não demonstrou recuperação clínica completa por exames tradicionais de função hepática, como ALT, AST, bilirrubina ou albumina. O que houve foi uma melhora acentuada nas medidas metabólicas e histológicas avaliadas.
A glicose também respondeu
Os animais obesos desenvolveram hiperglicemia e resistência à insulina, alterações diretamente relacionadas ao diabetes tipo 2.
A psilocibina reduziu significativamente a glicose em jejum e melhorou o desempenho dos animais no teste oral de tolerância à glicose.
Vários hormônios alterados pela dieta também se aproximaram dos níveis encontrados nos animais saudáveis. Entre eles estavam insulina, peptídeo C, leptina, resistina, GIP e peptídeo YY.
As diferenças apareceram até no pâncreas. Pela microscopia eletrônica, as células beta dos animais obesos apresentavam danos consideráveis. Entre os tratados com psilocibina, essas células produtoras de insulina tinham aspecto mais semelhante ao observado nos controles saudáveis.
Os músculos também foram afetados
A dieta prejudicou o desempenho físico dos camundongos. Os tratados com psilocibina preservaram melhor a capacidade muscular.
Os pesquisadores encontraram ainda sinais de recuperação de mecanismos celulares ligados à entrada de glicose nas células, ao uso de energia e à manutenção dos músculos.
Uma das pistas encontradas envolve a leptina, hormônio produzido principalmente pelo tecido adiposo. Na obesidade, os níveis de leptina costumam subir, enquanto o organismo responde cada vez menos ao sinal — a chamada resistência à leptina.
O tratamento parece ter restaurado parte dessa sensibilidade.
O mecanismo pode estar fora do efeito psicodélico
A psilocibina é famosa principalmente por sua ação sobre o receptor de serotonina 5-HT2A, fortemente relacionado aos seus efeitos psicodélicos.
Não foi esse, porém, o principal receptor apontado pelos experimentos metabólicos.
Testes em células humanas, medicamentos capazes de interferir seletivamente nos receptores e experimentos com edição genética por CRISPR/Cas9 indicaram um papel importante do 5-HT2B, especialmente no fígado. Quando esse receptor era bloqueado, partes importantes do efeito desapareciam.
Isso sugere que os benefícios metabólicos encontrados nos camundongos podem ocorrer por um mecanismo diferente daquele responsável pelas alterações de percepção.
A descoberta também levanta outra possibilidade: caso esse caminho biológico seja confirmado, talvez não seja necessário usar a própria psilocibina. Poderiam ser desenvolvidas moléculas voltadas especificamente ao mecanismo metabólico, sem produzir efeitos psicodélicos.
Ainda não sabemos se isso funciona em pessoas
O estudo foi feito em camundongos.
Seus resultados, portanto, não demonstram que microdoses de psilocibina façam pessoas emagrecer, tratem diabetes ou eliminem gordura do fígado. A dose usada nos animais também não pode ser simplesmente multiplicada pelo peso de uma pessoa para chegar a uma suposta dose humana equivalente.
Outro limite importante está no tamanho das amostras: havia aproximadamente dez animais em cada grupo e algumas análises incluíram ainda menos.
O interesse do trabalho está em outro ponto. Ele identifica um mecanismo biológico inesperado e suficientemente forte para justificar novos experimentos. Se os resultados forem reproduzidos e avançarem para outras etapas de pesquisa, será possível descobrir se esse caminho tem alguma utilidade terapêutica fora do laboratório.
Por enquanto, a psilocibina continua muito longe de ser um tratamento para obesidade ou fígado gorduroso. Mas o estudo mostra que uma molécula conhecida principalmente por seus efeitos no cérebro pode estar interferindo também em processos metabólicos no fígado, no pâncreas e nos músculos.
Fonte original: HypeScience
