Uma única dose de psilocibina — o princípio ativo dos cogumelos “magicos” — aliviou os sintomas de transtorno depressivo maior em poucos dias. Seis semanas depois, mais da metade dos pacientes que receberam a substância estava em remissão. O resultado parece extraordinário.
Um ano depois da viagem, a diferença entre a psilocibina e o placebo já não era tão clara.
Esse acompanhamento prolongado é o principal mérito de um ensaio clínico chamado PSIPET, publicado no JAMA Network Open. O estudo reforçou o potencial dos psicodélicos no combate a depressão, mas também não confirma que uma única viagem seja capaz de resolver o problema por tempo indefinido.
Uma dose com acompanhamento psicológico
O estudo reuniu 35 adultos com depressão persistente de intensidade moderada a grave. Dezessete voluntários receberam 25mg de psilocibina sintética (criada em labora’torio). Os outros voluntários 18 tomaram niacina, a vitamina B3, um placebo ativo.
A niacina foi a opção escolhida como placebo ativo porque tem o potencial de causar calor e vermelhidão na pele. A esperança era imitar algumas sensações físicas do psicodélico dos cogumelos e dificultar que os voluntários detectassem em qual grupo do estudo estavam.
Todos os participantes passaram pelo mesmo processo: preparação psicológica anterior, administração das substâncias em cápsula em uma clínica e três sessões seguintes com terapeutas para conversar sobre e consolidar a experiência. No dia de tomar as substâncias permaneceram sob supervisão profissional durante várias horas.
O estudo, no entanto, não testou cogumelos naturais consumidos em casa, como os que é possível comprar na internet. Testou psilocibina sintética de laboratório, em dose controlada bem específica, dentro de um ambiente clínico preparado para terapia psicodélica.
A melhora começou cedo
Os pesquisadores acompanharam os sintomas depressivos através de questionários e avaliações clínicas. No grupo da psilocibina, a melhora ficou evidente já nos primeiros dias logo após a viagem.
No oitavo dia a diferença ao comparar com o placebo era evidente. Essa diferença se ampliou na semana seguinte e permaneceu presente seis semanas depois.
Os próprios voluntários perceberam mudanças ainda antes, a partir do segundo dia. Em algumas avaliações a vantagem continuou aparecendo por um pouco mais de três meses. Quando os pesquisadores analisaram mais cautelosamente, removendo as avaliações realizadas depois que algum participante começou a tomar antidepressivos, o efeito permaneceu evidente por pouco mais de dois meses.
Não é pouca coisa para uma única dose. É um resultado significativo.
O resultado mais chamativo surgiu na sexta semana. Nove dos 17 voluntários que receberam o psicodélico estavam em remissão — ou seja, os sintomas depressivos haviam desaparecido — contra apenas uma no grupo de controle.
Como a amostra do estudo foi pequena (poucos partificipantes), uma ou duas pessoas já seriam suficientes para alterar significativamente essas proporções. Ainda assim, essa diferença dificilmente passaria despercebida.
A psilocibina parece ter criado um período melhora rápida. Mas o ensaio clínico não mostrou que essa proteção tenha durado o ano inteiro.
Talvez alguns pacientes precisem de novas doses, outro tratamento de manutenção ou viagens mais frequentes com os cogumelos. O PSIPET não foi planejado para responder qual seria a melhor opção.
Quase todos descobriram o que haviam recebido
Há um problema comum em estudos com psicodélicos: é quase impossível esconder de alguém que essa pessoa tomou uma substância psicodélica.
O PSIPET foi planejado como um ensaio clínico duplo-cego, ou seja, em teoria, nem os pacientes ou sequer os profissionais responsáveis por acompanhar a viagem com a substância ou aplicar as avaliações saberiam quem havia recebido psilocibina.
Mas na prática esse disfarce durou pouco.
Ao fim do estudo, 16 dos 17 voluntários do grupo da psilocibina conseguiram identificar corretamente qual substância haviam tomado. TODOS os participantes voluntários do grupo da niacina que responderam à pergunta também acertaram. Até mesmo os avaliadores clínicos — que acompanharam a viagem dos participantes — descobriram a distribuição da maioria dos pacientes.
Isso é importante porque expectativas tem a capacidade de ter influência no resultado. Quem acha que recebeu um tratamento promissor talvez interprete seus sintomas de maneira mais favorável. Quem percebe que estava no grupo de placebo pode sentir decepção. Os próprios profissionais também poderiam avaliar um voluntário de forma diferente se suspeitam a qual grupo o paciente pertence.
O estudo não tem a capacidade separar indubitavelmente o efeito da psilocibina, o impacto emocional da experiência no indivíduo e a expectativa criada ao redor da substância.
Duas pessoas tiveram ansiedade intensa
A maior parte dos efeitos negativos foi leve ou moderada e passou com rapidez. Dor de cabeça, ansiedade, agitação, aumento da pressão arterial e sensação de formigamento estavam entre as reações mais relatadas.
Duas pessoas que receberam psilocibina, no entanto, sofreram de ansiedade intensa que persistiu durante semanas e exigiu atendimento médico.
O número merece atenção já que eram só 17 pacientes no grupo com a substância produzida pelos cogumelos mágicos.
E não temos base para transformar estes resultados em recomendação de automedicação. A dose foi administrada uma vez após uma triagem rigorosa. Houve acompanhamento profissional em várias sessões antes e depois da viagem.
Antidepressivos clássicos podem levar até dois meses para ter efeitos e muitos pacientes apresentam resistência a este tipo de tratamento. A psilocibina teve ação rápida e levou parte considerável dos pacientes à remissão quase instantâneamente. Depois de algum tempo o efeito diminuiu. Depois de um ano da viagem já não era possível observar se o grupo da psilocibina continuava melhor que o grupo que ingeriu placebo.
Isso não diminui o forte efeito inicial. Mostra apenas que rapidez na ação e duração dos efeitos positivos são questões diferentes.
A psilocibina sintética — e possivelmente a dos cogumelos mágicos também — pode se transformar em uma ferramenta poderosa no combate a depressão, principalmente para quem não melhora com os tratamentos disponíveis atualmente.
Fonte original: HypeScience
